O "Trem da Morte"



.....Depois de passar por muito verde e planícies no Brasil central e trocar o passo de Corumbá (MS) para a Bolívia, chega-se a um solo árido, de cambistas desesperados (com cara de boliviano e jeito de brasileiro) e nos vem a primeira impressão do país: tudo é negociável (fato reconfirmado várias vezes durante a viagem de 20 dias pelo país). Estamos em Arroyo Concepción, onde quem chega por Corumbá deve carimbar o passaporte dando entrada na Bolívia.

.....Vá com tudo nos conformes. Qualquer "falta de pingo no i" já é motivo para lhe arrancarem uns bolivianos ou reais. Nossa equipe (e mais um viajante brasileiro) estava com o comprovante nacional de vacina contra Febre amarela (papel branco) e embora a proteção seja a mesma, os hombres do turismo boliviano "sugeriram' que voltássemos à Corumbá para conseguirmos a carteira internacional (papel amarelo). Como incorruptíveis brasileiros dissemos ok (que exemplo hein!)

Dez passos fora da sala do "bota defeito" vem o assistente pedindo US$ 10. Acabamos cumprindo a "diplomacia" e entramos na Bolívia por US$ 5 (cada). Resolvido o problema, seguimos em um táxi US$ 2,50. .....

Não muito diferente que a periferia de São Paulo, o local ainda tem muito de Brasil: na TV, Rede Globo; o idioma, portunhol. A Bolívia só está na fisionomia das pessoas, nas salteñas e em outros pratos servidos nos simples (e nada limpos) bares e na movimentação do Exército (carros e soldados).

.....Na vontade de sentir-se na Bolívia, o primeiro passo é sair daquele lugar, buscando pela passagem de trem rumo à Santa Cruz de la Sierra.

.....Na estação (mais lotada que estádio de futebol em final de copa do mundo) logo alguém lhe oferece uma passagem de segunda mão, por "apenas" US$ 25 (o preço da 1ª classe na bilheteria é US$ 7). Reluta-se em pagar tal quantia, mas o local parece que já se organizou para fazer com que a compra no paralelo seja algo oficial. Há pessoas que trabalham com isso, ganhando mais de 150% sobre o produto. Na bilheteria só há passagens para três dias a frente, logo, são três dias em um dos hotéis de Quijarro. Esse ciclo é o que parece mover a economia do lugarejo.

......Um pouco apressados, pagamos US$ 20 por uma passagem para o dia seguinte à nossa chegada (claro, de segunda mão). A primeira noite em um hotel na Bolívia saiu por US$ 2, com direito à ventilador de teto e à ducha fria (ótimo, pois o calor era de 40ºC) em banheiro coletivo. Já o temeroso jantar custou menos de US$ 1: arroz, metade de uma banana frita, carne (frango, milanesa ou chuleta) tudo regado a muito óleo. Resumidamente, um prato ruim para o organismo, bom para a fome e aceitável para os olhos!

.....Na manhã seguinte o déficit de atividades nos fez ir à Puerto Aguirre, a Zona Franca local. Há um shopping e um mercado que vende por atacado e varejo. O ar condicionado foi o melhor do passeio. O calor das 8h deveria estar por volta dos 45ºC. Detalhe, é possível chegar à pé no local (uns 5 minutos caminhando), mas se perguntar a algum morador, ele certamente irá lhe recomendar um táxi (deve ser para continuar o ciclo que movimenta a economia local).

O Trem

.....Se estiver a fim de ser protagonista de um filme de suspense esqueça! O trem pode até surpreender, mas não assustar. São 18 horas de viagem em meio a áreas rurais da região. E em todo esse tempo ouvindo os vendedores em uníssono: "Limonada, limonada; café, café; soda, soda (refrigerantes); empanada, empanada...", espetinhos de frango, carne, peixe frito e mais uma infinidade de produtos incluindo os pratos feitos (PF).

Silnei Laise / Mochila Brasil

Estação de Quijarro antes da reforma
.....Podemos dizer que a maior diferença entre o "trem da morte" e um trem de subúrbio paulista é que no segundo, são vendidos produtos industrializados e os vendedores exploram mais o produto "vai refrigerante (falam o nome de todos) geladinho, um real..., só tem aqui" ou coisa do tipo. No trem boliviano só os refrigerantes, chocolates, balas, chicletes e papéis higiênicos não são caseiros. Limonadas são transportadas em baldes abertos e vendidas em sacos plasticos com canudo.

......Além do comércio, o que pode surpreender alguns viajantes é o jeito dos bolivianos: incansáveis correm de vagão à vagão, sobem e descem nas paradas, gritam, se esbarram, quase sentam no seu colo... Outros fatos, são os homens da Polícia Nacional e/ou do Exército que circulam pelo trem e podem conferir sua passagem (sem problema se não estiver com seu nome) e a eventual falta de luz à noite (por isso não esqueça a lanterna e fique de olho na mochila). .....

Se quiser um pouco mais de sossego na viagem, desembolse US$ 17 (na bilheteria, claro) e vá na categoria Super Pullman, onde não há acesso aos endedores e os bancos são reclináveis (mas não se anime, não chegam a deitar). Se preferir economizar e já se integrar à Bolívia e tomar um "chá de fila" vá nos vagões das classes 1 (US$ 8) ou 2 (US$ 6). Essas classes não têm muita diferença entre si. Na primeira os bancos são para duas pessoas e em um 90º. Já na segunda os bancos também têm 90º podem ser para três pessoas e você corre o risco de viajar 18 horas de costas. Também há a opção extra, noturna que sai com apenas dois vagões, por US$ 35.

O percurso Quijarro - Santa Cruz de la Sierra é um dos quatro trajetos feitos em trem no país (os demais são: Villazón - Uyuni; Uyuni - Oruro; Uyuni - Estação varoa). As outras ferrovias foram compradas pelos chilenos e estão desativadas.

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